Análise: Copacabana (HQ)

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Análise: Copacabana (HQ)

Mensagempor CDX » 27/04/2017 (Quinta-feira), às 15h15min

Depois de 6 análises joguísticas... quadrinhos! :go: As imagens que saíram meio borradas é porque não tinha na net e eu não sou tão bom fotógrafo. XD

Um rolé pelo Rio. Sexo. Problemas. Otimismo. Sexo de novo, de novo e de novo. Mais problemas: dívidas, ameaças de estupro e chantagens. Polícia. Muita, mas muita prostituição. Drogas. Tiroteios. E a sensação de que, mesmo com todos os problemas, a vida não consegue parar de ser linda e gostosa.


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Putas. E a capa do livro.


Isso é Copacabana. Mário Bortolotto resumiu lindamente a HQ de Lobo e Odyr assim:

"Copacabana é aquele bilhete que você, totalmente de ressaca, encontra no bolso da calça de manhã. O bilhete da garota com quem você trombou ontem numa festa. E você sabe que ela é encrenca, tem um namorado de 2 metros que luta-jitsu e só quer mesmo é te usar pra provocar um sentimento egoísta no troglodita. Mesmo assim, você aparece na casa dela com meia dúzia de palavras bonitas e uma garrafa de vinho tinto mais ou menos vagabundo."

Afinal, quando o agiota que te emprestou dinheiro deixa uma mensagem na sua secretária eletrônica poucos dias antes de vencer o prazo, você sabe que vai se foder se não batalhar uma grana.

Copacabana é, antes de mais nada, a história de uma mulher com problemas até o talo. Conheçam Diana, nossa protagonista. Preta, puta e carioca. O aluguel é depois de amanhã, junto com o pedaço do mês passado que ela ainda não pagou. Pra piorar, ela está pra menstruar, o que dá mini-férias forçadas de mais ou menos 5 dias todo mês. Tá devendo grana pra um cara não muito legal e sua única família até onde sabemos é uma mãe que jamais aparece, exceto quando liga atrás de grana, sempre com uma boa chantagem emocional. Morcego, escritor de romances melosos que ela conhece mais tarde, parece virar seu único amigo de verdade. O problema não é ele ser o único. Ao contrário, que bom que o Morcego tá ali pra dar uma força.


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Diana.


Mas o mais importante não é o problema, e sim que ela é uma mulher comum: curte um chope, gosta de sexo, e tem seus problemas pra resolver como qualquer pessoa. Trabalha pra ganhar a vida como todos nós. Sua profissão é ilegal, mas pra ela isso é o de menos.

Se você acha chato quadrinhos sem grandes atos de heroísmo, Copacabana vai te perturbar. Diana faz merda. Ela tem e resolve problemas. Diana sorri e leva a vida. Apesar do nome, ela não é a Mulher-Maravilha. Pobre vítima de um mundo cruel, muito menos. Só calhou de todas as coisas que ela precisa pagar aparecerem ao mesmo tempo num momento ruim. Mas pra ela leite derramado não se chora em cima, o negócio é correr atrás. A dupla de quadrinistas deixa bem claro o que é Copacabana logo de cara: depois de um longo dia de trabalho, com algo entre um cliente por meia hora ao longo de 12 ou 13 horas corridas, nossa preta linda comemora. Porra, ela conseguiu toda a grana que precisava! E quando sai do puteiro, perde tudo num roubo idiota.

A escolha de Diana pela vida de programa jamais é banalizada ou glorificada, mas só percebemos como é tratada com tamanha naturalidade quando ela realmente se prostitui, em um programa que pode ter sido no Copacabana Palace. Foi porque precisava de muita grana muito rápido. O problema mesmo é que deu tão errado quanto pode ser possível e Diana sai do tal programa desnorteada, sem pagamento e agora em perigo real de vida. Aí fodeu de vez. Copacabana é exatamente como o Mário falou: você sabe que vai dar merda, mas você lê mesmo assim. Ou faz o tal programa. Ou vai na casa daquela garota com uma garrafa de vinho, sei lá.


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Um volume, 14 capítulos, quase todos simpáticos como este.


Em segundo lugar, a HQ não é só a história da Diana. Copacabana é um retrato carioca, bem retratado como poucos. Os dois grandes contextos aqui são o mundo da prostituição e a cidade maravilhosa. Pois bem: eu sou do Rio, nascido e criado aqui. Sou taquarense, cria de Jacarepaguá, e Copacabana na verdade nunca foi meu bairro favorito nem o que conheço melhor. Por isso é com certo estranhamento que digo que a ambientação desse quadrinho tem uma lealdade que não se acha em qualquer lugar.

Olha, eu não faço ideia do que é sentir ressaca. Ficar com mulher comprometida sempre foi contra os meus princípios e não bebo vinho tinto, já que nem beber eu bebo. Mas de algum jeito entendi o que Mário Bortolotto quis dizer. Não sei dizer bem por quê. Mas deve ser mais ou menos pelo mesmo motivo que eu achei o Rio de Copacabana tão real, mesmo que nunca tenha me prostituído, jamais minha casa foi invadida por um PM e eu não conheço o código de comprar cocaína pedindo uma rosa branca. Mas essas coisas são o que temos em Copacabana, e se duvidar que na minha cidade possa ter isso é porque nunca saí de casa.

O quadrinho não se limita às praias com bundas, nem ao turismo sexual, nem às favelas com traficantes, nem ao Cristo Redentor. Embora tudo isso faça parte de alguma forma, ele vai além, levando junto todos os clichês. Acontece que no íntimo os cariocas sabem que "o problema com estereótipos não é que eles são mentira, mas que eles são incompletos", como disse a nigeriana Chimamanda Adichie na brilhante palestra onde ela fala do que chama de perigo de uma história única. A real é que o Rio é uma cidade grande e diversificada pra caramba, e quanto mais você conhece isso aqui mais você sabe sabe que nenhum retrato dele jamais vai conseguir ser completo.


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Alguém me traz água de coco?


Mesmo assim, o esforço de Copacabana é lindo de se ver. Clássicos como "antes que eu te cubra de porrada", "é o maior 171", "peraí" e "peraí, o caralho!" estão exatamente onde têm que estar, e em nenhum momento me passaram a sensação de terem sido colocados numa forçação de barra. Pelo menos desta vez, não é uma tentativa de mostrar o Rio feita por alguém que assiste Cidade de Deus e Tropa de Elite e acha que já conhece o purgatório da beleza e do caos. Mesmo com todos os problemas, o Rio de Janeiro continua lindo, num estranho reflexo da cidade original. Lindo apesar desses problemas, e não por causa deles. Nem os cariocas de verdade nem os que Lobo e Odyr nos apresentam achamos que morrer é estiloso. Prostituição é ilegal sim, e temos um problema sério de poluição, violência (das milícias às brigas de trânsito) e infraestrutura urbana precária, pra falar o mínimo. Mas tanto Diana quanto a beleza carioca seguem firmes e fortes, como a fênix que se refaz das cinzas.

É justo por isso que o maior spoiler do texto não está na história, mas na surpresa de descobrir que ela não foi criada por cariocas. Ou foi, como talvez diria Rica Perrone, o paulista que fez a melhor descrição do Rio que já li e escreveu que "É preciso entender que o carioca não se diz carioca por nascer aqui. Carioca é um perfil." Assim como a postagem no blog do Rica, Copacabana começou quando Lobo e Odyr chegaram na cidade. Vieram do sul, e a pesquisa deles inclui conversas com a galera, fotos e a debruçada básica na mesa com o material coletado. Foi um turismo tão bem disfarçado de trabalho de campo que o resultado que chega às nossas mãos é pra dar inveja em muito jornalista e geógrafo por aí.

Assim como as milhões de pixações nos muros daqui, o traço parece carvão borrado. Não é por isso que é feio, muito pelo contrário. "O sol é que atrapalha a vista", como bem definiu Priscilla Santos, numa típica alusão ao clube noturno famoso de Copacabana, responsável pelas mais memoráveis viradas de ano de muita gente e onde Diana curte ir pra dançar. Não há cores, dificilmente há cinza, e depois de ler é difícil pra mim imaginar a HQ de outra forma. Copacabana é preto no branco, inclusive no traço. É um rabisco, se é que dá pra usar essa palavra como elogio. É grosseiro como uma cantada fora de hora. E é maravilhoso.


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Morcego: escritor, amigo, e cliente nas horas vagas.


E em terceiro lugar, Copacabana é arte sem frescuras. Sim, preto no branco. Não medi vocabulário nesta análise justo pra que você entenda. Se acha nojento ver rolas, peitos e bocetas num filme ou num quadrinho, ou se acha falta de pudor chamá-los assim, Copacabana também vai te perturbar. Não existe "pudor". Não tem essa de erotismo velado. É sexo explícito, quando se levanta dinheiro e quando se comemora uma conquista. Não é quadrinho de putaria (não nesse sentido hentai da coisa, pelo menos), passa longe da pornografia. Sexo aqui é só algo que faz parte da vida e, portanto, da HQ. Pra mim, sexo é amor materializado e algo que só compartilho com minha esposa. Pra Diana e suas colegas de trabalho é fonte de renda, e tratado como tal. Como ela diz, "meu negócio é sexo, pau na boceta", sendo que "negócio" aqui tem triplo sentido.

Na verdade, o grande lance de Copacabana pra mim é que ela também me perturbou. Se sentir perturbado com uma leitura dessas é inevitável. Às vezes dá a impressão de ser exatamente esse o objetivo do roteirista. Quadrinho é arte, e arte incomoda mesmo. Pra Diana, se você não gosta do trabalho que ela escolheu, foda-se, não é problema dela. Insensibilidade pra ela não é trepar sem amor, é não se emocionar com certas leituras. Se isso não te incomoda, outras coisas vão. Vai ter gente achando que o Rio de Odyr e de Lobo é muito caricato. Pros mais habituados a tudo isso, temos cenas realmente perturbadoras pra dar e vender. Afinal, tem uma história sendo contada.


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Contando quanto rendeu o trabalho do dia.


Em algum lugar lá dentro a gente tem muita dificuldade em não se sentir próximo com o que é contado aqui, por mais distante que seja da nossa realidade. Por exemplo, como escritor, posso dizer tranquilamente que já tive alguns momentos como os de Morcego, mas não tenho como afirmar se uma prostituta real passa pelo que Diana passa. Como disse, nunca me prostituí, também nunca paguei por um programa. Se amanhã alguém que ganha a vida cobrando por sexo me disser que nada do que Copacabana mostra é verdade, vou ser forçado a acreditar. Mas de alguma forma o contexto deixa difícil achar que é isso que vão me dizer, não só pela excelente ambientação carioca, e sinto que é mais provável que me digam "não é exatamente desse jeito, mas já passei por isso também". Afinal, os personagens são gente comum, tratados pelos quadrinistas como gente, que escolhem se arriscar um pouco aqui pra não se ferrar muito ali.

Quando conhecemos Diana, ela está fazendo contas. Quando nós nos damos conta, já vimos o tal programa que deu errado e agora só interessa achar a porra da maleta que sumiu lotada de grana. Morcego usa pseudônimos pra escrever romances extraordinariamente melosos e que parecem novela mexicana na versão do SBT, só que realmente bem escritos. Isso não quer dizer que ele tenta convencer Diana a largar a vida de puta nem que o primeiro "oi" seja num jantar à luz de velas marcado por um colega em comum que quis botar alguém na fita de alguém. Eles se conhecem à moda antiga: ele vai no puteiro e paga por uma foda com ela. Talvez em busca de inspiração pra cena de sexo que tava escrevendo mais cedo. A humanidade vai chegando ao seu ápice à medida que a busca pela maleta se desenrola e faz a gente se dar conta do destino inevitável: em algumas páginas termina a leitura, e não terá mais Copacabana pra gente desfrutar.

Por último, é preciso mostrar que é possível criticar Copacabana. Se fosse tão famosa quanto o bairro e a praia que lhe batizam, com certeza ia chover quem dissesse que ela reforça preconceitos. Outra crítica seria a de que o Rio está estereotipado, e lugares importantes da cidade são ignorados solenemente, como Campo Grande, a Cinelândia ou os vários parques, da Pedra Branca à Quinta da Boa Vista. Ou talvez alguém ache que ela toca muito raso em pontos politicamente e socialmente importantes como identidade de gênero, violência urbana, a questão das drogas, família, problemáticas da prostituição e o próprio descaso total do Estado com todas essas questões em certos lugares. Embora Copacabana tenha claramente outra proposta e essas coisas não passem de contexto, é uma crítica razoável. Todas são, e têm seu fundamento. Mas no fim, a sensação é de que todas essas críticas são muito mais uma oportunidade pra levantarmos um debate digno e honesto sobre tudo isso... do que defeitos da obra.


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E se fosse um quadrinho, virava uma dessas coisas fodas que ninguém conhece.


É quase como se Copacabana não tentasse fugir dos problemas que possa ter, como Diana não tenta. Ou como se tivesse uma mentalidade como a minha, de que na vida existem certos problemas que simplesmente não merecem atenção. Rica Perrone é de Sampa e não me deixa mentir: pro carioca a vida carioca não tem que ser profissional. Tem que ser gostosa. E no fim, o mais gostoso de se escrever sobre Copacabana (e talvez de se escrever Copacabana em si) é escolher o que não contar. Certas coisas não seriam qualquer spoiler e ilustrariam bem tudo que falei aqui. Mas resolvi não contar, do mesmo jeito que Copacabana respeita nossa inteligência ao não contar o que acontece com os personagens no tempo entre sair de cena e voltar a aparecer.

No meu caso, não é por "respeitar inteligência" (quer algo pior pra um texto explicativo como este do que contar com o adivinhômetro de quem lê?) e nem é que eu seja sádico, é só que... Certos cabaços vale a pena perder. Copacabana reforça isso, leiam que vocês entendem. Talvez alguém ache Morcego contraditório por escrever histórias românticas e ao mesmo tempo meter sem culpa numa preta carioca gostosa qualquer que diz "sim" por uns trocados. Mas Copacabana me convenceu que não tem contradição alguma na estranha amizade que se desenrola. Porque quando parece que todos os pepinos foram resolvidos, que a poeira vai baixar, que dá pra respirar aliviado e que não falta acontecer mais porra nenhuma... Os dois protagonizam o momento mais impactante de Copacabana quando Morcego resolve perguntar: o que que a gente ainda não fez?

O que vem depois é impagável.


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"Antes que eu te cubra de porrada".


Obs: Corrigindo aqui, prostituição não é ilegal no Brasil, como me apontaram depois que escrevi a análise. Encontrei até a ocupação "Profissional do sexo" no Cadastro Brasileiro de Ocupações. Peço desculpas então pelo engano. O que descobri, ironicamente, é que o código penal tenta proibir a prostituição pelas beiradas.
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CDX
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