Histórias quase-reais

Lugar apropriado para postar seus Fanfics, contos, poemas etc. para que todos do fórum possam ler com facilidade.

Histórias quase-reais

Mensagempor Delavu_Ocean lyrics » 14/01/2012 (Sábado), às 20h53min

Vamos queimar o meu filme de vez postando uma fic de Digimon.
Vamos também contextualizar a criação dessa fic antes.

Um velho amigo meu, usuário de um, agora extinto, fórum de digimon pediu para eu entrar lá e fazer uma fic porque as coisas andavam meio paradas.
Disse para ele que digimon não era o meu forte, mas ele insistiu. Fiz então algo um pouco diferente com o conhecimento que eu tinha.
Vi essa história empoeirando no google docs e resolvi divulgá-la aqui.
Boa leitura.

Uma história quase-real do futuro

ou

Péssima noite para se ter antenas

Parte 1

Era uma casa normal o suficiente. Quer dizer, não era como aqueles barracos de concreto que se amontoavam em terra, muito menos parecido com as mansões flutuantes das cidades aéreas. Normal. Flutuava a uma altura razoável, segura e barata. Era circular, como a maioria das casas que se estendiam pelos céus, a visão delas no final de tarde era magnífica, embora ninguém prestasse muita atenção.
Aquela hora, porém, não havia Sol. Uma pesada noite encobria todas aquelas casas que já recolhiam seus painéis solares como um balé em pleno ar. Pouco a pouco, as luzes também se apagavam. As pessoas acabavam se acostumando a essa rotina. Dormiam e acordavam praticamente no mesmo horário, talvez até, se estivessem utilizando um amplificador auditivo pela manhã, ouviriam as rítmicas mordidas em torradas por toda a vizinhança. Não podemos culpá-los, desde que o ar tornou-se inviável, deixaram de visitar uns aos outros, perderam certas marcas de humanidade.
Como ia dizendo, era noite, uma noite típica, silenciosa, apenas as cigarras e os motores de levitação das casas entoavam um cântico belo e sereno. Em uma dessas casas, mais precisamente em uma casa normal o suficiente, uma figura não dormia, se esgueirava silenciosamente pelos cômodos.
"PACK"
O menino olhou assustado para trás com o barulho. Era seu pequeno robô de companhia que bateu violentamente contra o teto.
- Shiuuu! - Disse o menino colocando o dedo na frente dos lábios - O papai não sabe que estamos acordados.
O robô se recompôs, olhou para os lados procurando uma antena que quebrara, não achou. Era um robô realmente pequeno, do tamanho de uma bola de basquete, tinha uma grande lente na frente e um sofisticado motor de propulsão silencioso. Normalmente flutuava de um lado para o outro dizendo o quão feliz estava por fazer companhia para os humanos. Aquela noite, porém, parecia apreensivo.
- Senhor, você não... - Começou a dizer o robô com sua voz eletrônica.
O menino, que continuava a andar vagarosamente, olhou para ele bravo com o dedo novamente na frente dos lábios.
- Desculpe senhor - Disse o robô, diminuindo o volume de sua voz - Mas você acha mesmo que é uma boa idéia fazer isso?
- Não - disse o menino, e continuou andando.
O robô já tinha quebrado seus circuitos antes pensando nos paradoxos humanos. Para resolver o problema, modificaram seu sistema, agora sempre que chegava a uma quebra de lógica, aparecia uma mensagem automática: "Tudo bem".
- Tudo bem - Disse o robô, sem entender muito bem por que disse aquilo.
Continuaram.
Pé ante pé, vagaram por todo o corredor escuro até chegar a uma porta grande. O menino tentou acioná-la, mas antes de apertar o botão, pensou melhor.
- Steve - Disse o menino olhando para o robô - Tem algum jeito de abrir essa porta sem fazer barulho?
Steve, o robô, analisou os dados por um minuto, flutuou até o painel de controle e logo um pequeno "click" aconteceu.
- Destravei as portas e desativei o sistema de abertura senhor, pode ser aberta manualmente agora.
O menino colocou as mãos na porta e devagar a deslizou para o lado.
Era um quarto velho, quer dizer, a estrutura era tão nova quanto o resto da casa, mas os móveis lá dentro o faziam parecer antigo. Tinha uma televisão jurássica, daquelas grossas com um dedo de espessura; um armário de madeira com algumas roupas; uma porção de aparelhos enormes, do tamanho da palma da mão, de onde saíam fones de ouvido com fio. Em um canto havia um baú de madeira grande com uma fechadura brilhante, embora um pouco enferrujada.
O menino ordenou a Steve que viesse com muito cuidado para não esbarrar em nada e adentrou. Andou devagar, como se alguns daqueles móveis fossem animais selvagens prontos para atacar. Chegou ao que parecia seu objetivo, o grande baú. Olhou intrigado para a fechadura tentando imaginar o que deveria fazer.
- Me ajude a abrir isso, Steve - Disse o menino, enquanto tentava forçar a tampa do baú.
- Você disse a seu pai que não entraria aqui de novo, não disse? - Perguntou Steve.
- Disse - Respondeu o menino ainda forçando o baú.
- Tudo bem - Disse Steve não achando resposta melhor em seu banco de dados. Se tivesse procurado mais na seção de expressões humanas acharia um conveniente "Não me pagam o suficiente para esse trabalho", que já tinha utilizado em outras ocasiões, embora não o aproximasse dos humanos como gostaria.
- Para abrir esse recipiente você deve desativar esse mecanismo antigo primeiro - Steve escaneava a resistência da fechadura, calculando que seria impossível para o garoto abrir o baú usando apenas a força.
- Você pode desativar esse sistema como fez nas portas? - Perguntou o menino, ainda apalpando as laterais.
- Infelizmente o mecanismo não está ligado a nenhum sistema, deve ser aberto manualmente com algum tipo de ferramenta.
- Que ferramenta? - Perguntou o menino, concentrado no buraco da fechadura.
- Uma chave - Disse uma voz atrás deles.
O susto do menino foi tão grande que o fez cair para trás. Olhou para cima e viu um homem de pijamas segurando algo metálico na mão.
- Acho que isso é seu Steve - Disse o homem entregando a antena que Steve perdera.
- Obrigado senhor - Disse o robô ativando duas pequeninas mãos para segurar a antena. Saiu flutuando da sala.
- Pai... - O menino falou baixinho.
O homem andou até onde o menino estava e sentou no chão. Começou a falar depois de um longo suspiro de quem acordou de madrugada e não acha que vai voltar a dormir tão cedo.
- Você lembra por que eu disse para não entrar nessa sala? Os aparelhos e os móveis que eu guardo aqui são muito antigos, bem mais velhos que o seu avô que já tem 118 anos. Não há mais quem fabrique um desses, até as réplicas são feitas com outros metais...
O menino se levantou rápido e ficou de joelhos.
- Pai, eu juro que não estava mexendo neles, pergunta para o Steve, eu só queria saber o que tinha nessa caixa esquisita.
O homem olhou para o baú. Fazia algum tempo desde que ele mesmo havia aberto.
- Essa caixa se chama baú. Na verdade no tempo do seu avô isso já era uma antiguidade. - O homem passou a mão pelo baú como se ele fosse um filhote de cachorro.
- E o que tem dentro dele? - Perguntou o menino, curioso.
Já estava tarde, o homem pensou em levar logo o filho para o quarto e botá-lo para dormir. Olhou para o menino, estava crescido, já não era mais aquele bebê teimoso e inconseqüente, se tornou um garoto inteligente, curioso, decidido, corajoso. Quando foi que cresceu tanto? Mudou de ideia.
- Vou te mostrar - Disse o homem puxando a corrente que tinha no pescoço. No final dela estava uma chave, um tanto grande para ser usada de pingente. Devagar para não forçar a fechadura, o homem girou a chave até ouvir o barulho a tranca se abrindo.
O menino se apressou em tentar levantar a tampa, mas ainda assim era muito pesada para ele. Olhou para o pai com o olhar de quem espera algo acontecer.
O homem colocou as mãos na tampa, mas não a abriu.
- Steve! - Gritou o homem - Venha cá, quero que grave algumas coisas no banco de memória.
O robô voltou flutuando, agora com uma antena grande saindo de cima e os braços desativados.
- Esse baú é onde eu guardo minhas coisas de quando era criança, alguns brinquedos, alguns desenhos... - Disse, enquanto lentamente levantava a tampa.
Steve preparou bem seu banco de dados, não sabia muito sobre lembranças humanas, mas se fosse como todo o resto, então temia pelos seus circuitos. O menino foi retirando com cuidado os objetos lá de dentro.
- O que é isso pai? - Disse levantando um aparelho pequeno.
O homem riu.
- Sabe? Eu não tinha muitos brinquedos meus quando era menor. Herdei a maioria do meu pai, e ele herdou do meu avô. Esse era do seu bisavô - Disse abrindo o aparelho. Dentro dele havia duas telas e alguns botões - Foi um videogame muito influente na época. Vinha com microfone, uma caneta e uma tela sensível para jogar.
O menino pegou o aparelho da mão do pai, olhou por cima, fechou, abriu, olhou por todos os lados.
- E por que só uma das telas é sensível? - Perguntou enquanto balançava para ver se fazia barulho.
- Eu... Eu não faço idéia. Mas acabou dando certo.
O menino segurou do jeito que achou que normalmente se seguraria, pegou a caneta que estava encaixada e disse:
- Liga - Nada aconteceu - Liga.
- Ele não liga com a voz, tem um botão do lado para ligar - Disse o pai.
O menino pensou em perguntar o porquê de ter microfone então, mas resolveu deixar de lado. Passou para o pai e voltou a remexer o baú.
- E isso, o que é? - O menino segurava algo que parecia duas meias-luas de plástico presas por fora por um metal.
- Nossa, como isso é velho. Eu adorava... Veja se tem dois bastões com um cordão amarrado.
O menino vasculhou dentre as coisas velhas e achou o que o pai pediu, entregou a ele.
- Esse... - Disse o homem desenrolando o barbante e colocando o objeto no chão - É um brinquedo de malabarismo, a gente tem que fazer essa coisa rodar em falso nesse cordão.
- Como? - Perguntou o menino.
O homem hesitou por um momento, mas resolveu ir em frente, colocou o objeto em cima do cordão e puxou as varetas. O brinquedo saiu voando e bateu no Steve que não processou os dados rápido o suficiente para desviar. Foram parar no teto e novamente um barulho "PACK".
- Acho que não sou mais tão bom nisso - Disse guardando aquilo de novo. Pegou algo que parecia uma vareta de metal do chão. - Ah sim, desculpe Steve, aqui está sua antena de novo.
- Não me pagam o suficiente para esse trabalho - Disse aproveitando a oportunidade de usar a expressão. Ativou os pequenos braços e saiu mais uma vez para consertar a antena.
- Quem anda ensinando essas coisas para ele? - Disse o homem baixo.
O menino continuava a mexer nas coisas dentro do baú até que encontrou uma caixa de papelão grande.
- E isso, o que é?
- Isso... Será que... - O homem abaixou mais uma vez e abriu a caixa com cuidado - Não acredito... É...
- O que pai, o quê? - O menino tentava olhar por cima sem muito sucesso.
O homem virou a caixa ao contrário devagar e o chão se encheu de pequenos bonecos de plástico coloridos de diferentes formas.
- Esses são os meus bonecos - Disse pegando um do chão e assoprando a poeira. Lembrava uma grande ave - São de uma coleção antiga do meu avô. Meu pai me disse que o seu bisavô não desistiu até conseguir todos.
O menino olhava para o chão ainda com certa desconfiança. Abaixou devagar, pegou um na mão. Era leve, um tanto simples, dava para ver as marcas de plástico do molde em volta. Tinha a forma de um leão usando calças.
- Acho... - Disse o garoto balançando o boneco -... Esses também não ligam por comando de voz, não é?
- Não, meu filho... - O homem riu um pouco - Esses brinquedos a gente tem que usar a imaginação mesmo.
- Tem que usar o quê? - Perguntou indignado.
Steve entrou na sala flutuando essa hora, já estava com a antena consertada.
- Imaginação, a faculdade do espírito de criar, produto do ato de fantasiar, suposição, cisma, deturpação da realidade...
- Está bem Steve, pode deixar comigo - Disse o homem balançando a cabeça.
O menino largou o boneco e procurou por outros, olhava com atenção cada detalhe.
- Por que eles têm formas tão diferentes? - Perguntou o menino, tentando entender o que ligava toda aquela coleção.
- Na verdade - Disse o homem, tentando se lembrar - Esses bonecos eram personagens de uma série animada muito antiga.
- Uma série animada? - Perguntou o menino animado, olhou de novo para os bonecos - A realidade virtual devia ser bem legal.
- Meu filho... Naquela época não se assistia programas por realidade virtual - Disse o pai, pensando na melhor maneira de dizer.
- Eram... Efeitos 3D? - Disse o menino, tentando pensar na coisa mais antiga que conhecia.
- Bom... De certo modo, tinha alguns... Mas acho que não é exatamente o que você está pensando.
- Como era feito então? - Perguntou curioso.
- Ele... Era basicamente desenhado. É daí que vem o "Animada" em "Série Animada". Antigamente se fazia uma animação com a sobreposição de desenhos que davam um efeito... - O homem parou de falar quando viu a cara confusa do garoto.
- É.... Como quando colocamos um monte de fotos juntas e passamos rápido? - Perguntou o menino.
"Ufa" pensou o pai, imaginando o tempo que perderia tentando explicar.
- Isso mesmo filho, desse jeito.
O garoto se deitou no chão e começou a fazer uma fila com os bonecos. Steve ainda não tinha entendido a tal da sobreposição, mas achou melhor não atrapalhar.
- Me fala da história então pai.
- A história? - O homem olhou seu relógio de pulso, mas lembrou-se que não funcionava, só usava mesmo por hábito. Devia estar tarde, porém, agora que tinha começado iria acabar. - Bom, vamos à história então.
O menino se virou para o pai e deixou a fila de bonecos esquecida de lado. Steve abriu um editor de texto interno e começou a transcrever o que o homem dizia.
- É uma história sobre seres digitais chamados digimons, tudo começou quando um grupo de crianças foram a um acampamento...

Parte 2

Era uma noite normal o suficiente. Quer dizer, não havia nenhum barulho fora do comum, nenhuma movimentação estranha. Era uma daquelas noites em que o travesseiro não está quente ou frio demais; a escova de dente não faz tanta espuma e o ar está quase inodoro.
Noites assim são boas para se ser normal, ao menos o suficiente. As pessoas sabiam disso, e quando perceberam que a noite chegava, jantaram a comida mais normal que encontraram, tomaram cada qual o caminho mais normal através de suas casas flutuantes até suas camas e dormiram na posição mais normal que conseguiram. No entanto, se estivessem usando um amplificador auditivo pela noite, ouviriam em uma certa casa normal o suficiente, a voz de um homem sonolento, enquanto contava ao seu filho a história de uma aventura.
-...Então eles todos foram parar em uma dimensão paralela estranha, lutando contra aquele digimon gigante. - Disse o pai, fazendo um esforço fora do comum para se lembrar.
- Qual deles pai? - Disse o menino, deitado no chão enquanto brincava com alguns bonecos de plástico.
Era um quarto velho, quer dizer, era um quarto iluminado, envidraçado, cheio de botões, mas a poeira e o ar há muito tempo não respirado davam a impressão de velho. Tinha muitos utensílios antigos, como uma caneca grande de plástico, com lâminas no fundo e um fio saindo de baixo; uma bola pesada com três buracos. Em um canto havia um baú de madeira grande com uma fechadura brilhante, embora um pouco enferrujada. Estava aberto e pelo chão se espalhavam bonecos coloridos com formas diferentes.
- Qual? - O homem tentava se lembrar do que ele mesmo tinha falado há alguns instantes. Olhou para o Steve pensando em pedir uma dica, mas o robô não parecia mais interessado na história do que os móveis e aparelhos domésticos antigos.
- É... Qual deles é esse gigante? - O menino parecia estranhamente interessado. Procurava dentre os bonecos no chão, os maiores, para ver se ajudava seu pai.
Steve percebeu cedo que a história que o homem contava muitas vezes não fazia sentido, não tinha continuidade, era cheia de digressões malucas e carecia de certas coerências. Parou de transcrever, jogou o arquivo na lixeira interna e passou a pensar sobre a vida olhando para seu reflexo na TV. Nunca entendeu essa mania dos humanos de parar para pensar na vida, mas não parecia uma hora totalmente inadequada para fazê-lo.
- Bom... Acho que... Aquele preto com uma bola gigante embaixo...
O menino revirou os bonecos procurando.
- Esse aqui pai?
- Esse mesmo, vê qual o nome dele.
- Acho que é um dodecaedro.
- Dodecaedro? Acho que o nome dele termina com "mon" filho.
- Não pai, não é uma bola, é um dodecaedro.
O pai passou a mão no rosto, estava com o olhar de quem foi acordado pelo filho de madrugada e estava realmente querendo dormir. O menino folheou uma revista antiga que estava dentro do baú. Ela ajudou a dar muitos nomes e cobrir várias lacunas na história estranha que o pai contava.
- Esse... esse se chama... Apocalymon pai.
- Ótimo, então eles começaram a lutar com o Apocalymon, digivolveram, venceram e voltaram ao seu mundo. Fim. - O pai começou a levantar do chão mas foi puxado para baixo.
- Pai! - O menino segurava com força o pijama listrado do homem.
- Meu filho, meu filhinho... O papai está tão cansado... - O homem tentou levantar de novo, mas, talvez pelo sono, talvez pela força do garoto, não conseguiu sair do chão.
- Mas você não explicou direito. Eu não entendi nada do que aconteceu.
Algo naquele quarto deixava a tarde mais tardia, a noite mais noturna e o sono mais sonolento. O homem apertou os olhos algumas vezes para ver se conseguia mantê-los abertos, mas foi em vão. De repente o chão parecia tão convidativo, e aquela pilha de bonecos podia quase se confundir com um travesseiro fofo, e...
- Pai? - Perguntou o menino, não entendendo o silêncio.
O homem balançou a cabeça acordando.
- Está bem filho, mas o papai precisa tomar algo para acordar primeiro - Estava realmente com muito sono, mas até que estava gostando daquela conversa com o filho que quase nunca acontecia - Steve, você não quer pegar um café para mim na cozinha?
- Não - Respondeu o robô ainda olhando para a TV.
Um breve silêncio. O homem quase não acreditou que teria que pedir outra vez.
- Mas, pode pegar mesmo assim? - Perguntou com a calma que o sono concedia.
- Tudo bem - Disse Steve, feliz por poder ser sincero com um humano.
Saiu flutuando pela porta.
- Precisamos de outro robô - Disse o homem se rendendo e deitando no chão - Ou de outro pai... eu acho...
- Deixa ele papai - Disse o menino soltando o pijama do pai e voltando a mexer nos bonecos - Agora, me explica?
- O quê, meu filho?
- Hum... - O menino não sabia por onde começar - O que... são brasões?
O pai fechou os olhos e rolou de um lado para o outro no chão, ficando com marcas no rosto de seadramon e gomamon, segundo a revista.
- Brasões meu filho... São símbolos. Algo como um logotipo.
- E por que eles faziam os digimons digivolverem?
- Eu falei que brasões faziam os digimons digivolverem? - Disse o homem abrindo os olhos devagar, começando a ficar preocupado com os esquecimentos.
O menino balançou a cabeça meio desanimado. Steve entrou pelo quarto com uma pequena mão mecânica ativada, segurando uma caneca de café.
- Obrigado, Steve - Disse o homem segurando a caneca com as duas mãos e tomando em generosos goles - Ah sim, brasões, me lembro agora. Os brasões eram como... Pingentes que serviam de... Complemento para o digivaice... Um upgrade, por assim dizer. Cada um no grupo tinha o seu, com um símbolo diferente.
O café parecia estar surtindo efeito. Logo as idéias e lembranças começaram a fluir naturalmente.
- Acho que entendi... - Disse o menino, se empolgando de novo - Me fala da última luta de novo, pai?
- Bom, meu filho, eles estavam naquela dimensão e lutaram contra esse digimon, lutaram pra valer, mas não conseguiram vencer - Os olhos do menino ficaram crescidos e brilhantes - Então, eles foram deletados...
- Mas pai... Você não disse que eles venceram? - Interrompeu o menino.
- Calma, calma, vou chegar lá. Eles foram deletados e o Apocalymon quebrou todos os brasões. As crianças foram parar em um lugar muito branco, muito claro, onde nada existia.
- Tudo bem - Disse Steve automaticamente, quando tentou entender como se pode estar em um lugar onde nada existe.
- Obrigado pelo apoio Steve... Eu acho... - Disse o homem desconfiado - Então, elas quase perderam a esperança, mas usando o poder dos brasões, conseguiram voltar e destruir Apocalymon de vez.
- Pai... Você disse que o Apocalymon destruiu os brasões. Como eles usaram o poder dos brasões então...
- É complicado, meu filho... - Disse o homem na esperança que o menino dissesse algo como "Tudo bem pai, não precisa falar. Acho que vou dormir", mas o garoto ainda olhava para o pai, esperando a explicação.
- Bom... - Continuou o pai, vendo que não tinha mais jeito - É que os brasões não eram assim tão importantes, mas sim o que cada um representava. Eles perceberam que não precisavam de pingentes, e sim acreditar no significado de cada um deles.
- E o que signicavam?
Era a pergunta que o pai mais temia. E agora? Como lembrar? Era... Fogo, terra, vento, água, coraç....Não, isso era outra coisa. Talvez dengoso, zangado... Não. Hum... Valente, Sincera, Amigo, Amado, Campeão, Vovó ursa... Pera... Quase isso...
- Eram na maioria... Virtudes humanas... Como a coragem, a sinceridade, a amizade...
O menino olhou para o pai com um olhar diferente, parecia triste. Largou os bonecos, e sentou-se no canto olhando para baixo.
- Parece legal... - Disse baixinho o garoto.
O homem não entendeu direito o que aconteceu, foi andando devagar em direção ao menino e sentou-se ao seu lado.
- Filho? Meu filho, você está triste? - Começou a passar a mão devagar pelos cabelos do garoto - Não vai falar comigo? Hein?
O menino se levantou e se sentou em outro canto.
- Achei que estava se divertindo - Disse o pai, sem se levantar.
- Eu estava - Disse o menino baixo, ainda olhando para o chão.
- Então... O que aconteceu?
O garoto se levantou e foi devagar para a pilha de bonecos, pegou alguns, ficou algum tempo olhando. Finalmente falou.
- Pai... Eu gostei muito, mas... Por que você nunca deixou eu entrar aqui então?
- Filho... - O homem se levantou e foi sentar com o menino, olhou o baú, tantas lembranças... - O que acontece filho... Eu quis te dar coisas que eu não tive.
- Como assim? - Perguntou o menino olhando para o pai.
- Sabe, a maioria dos brinquedos que eu ganhei quando era criança foram do meu avô, passaram para o meu pai, e depois para mim - O homem pegou um cubo colorido do baú, começou a desmontá-lo e girá-lo embaralhando as cores - Meu pai não quis comprar coisas novas para mim. Ele costumava me dizer que o mundo estava virando uma bagunça, que as pessoas não gostavam mais umas das outras, e que nós evoluímos, mas infelizmente não melhoramos.
O homem deixou o cubo no chão, nunca conseguiu terminar aquilo mesmo. O menino pegou discretamente o cubo caído.
- Eu quis algo diferente para você, eu quis te dar a chance de conhecer algo que não conheci, a viver totalmente nesse futuro, nessa vida.
- Mas pai... E se eu achar legal crescer com esses brinquedos? - O menino girava o cubo concentrado - E se... Além de me dar o que você não teve, você me desse também algumas coisas que você teve? Sua infância foi tão ruim assim?
O homem piscava os olhos confuso, olhou para a caneca algumas vezes para ter certeza de que o que tinha tomado era realmente café. Ele nunca imaginou que aquele menino já tinha esse tipo de pensamentos, já criticava as coisas e se importava tanto.
- A minha infância... Não... Ela não foi tão ruim. Na verdade ela foi muito boa.
- Parece ter sido boa...
O homem se aproximou do menino e pôs o braço em volta dele.
- Foi sim... Me desculpe filho... Acho que não fui muito sincero com você.
O garoto largou o cubo no chão. Também não fazia idéia como resolvê-lo.
- Tudo bem pai. Você fez o que achou que tinha que fazer - Disse o menino sorrindo.
Naquela hora o pai lacrimejou. Talvez prefirisse que o filho tivesse chorado, feito escândalo, coisas de criança. Ele cresceu tão rápido, imaginou que logo estaria se formando, casando, arranjando a prórpria casa flutuante... Abraçou o filho bem apertado.
- Pai! Tudo bem! Já passou, passou - Disse o menino dando tapinhas nas costas do homem - Agora você está me machucando pai!
- Desculpa filho, desculpa. - Disse o homem soltando e rindo - Prometo que vou mostrar tudo o que tem aqui.
- Sabe o que eu queria? - Disse o menino, pausadamente, como quem pede sorvete antes do jantar - Tem algum jeito de assistir digimon hoje?
- Hum - o homem olhou algum minutos dentro do baú e achou algumas caixas finas com alguns desenhos na capa. Abriu e dentro estava um disco brilhando com um furo no meio - Acho que é bem possível - Disse o homem, tirando o disco com o dedo no buraco.
- O que é isso? - Perguntou o menino, novamente com os olhos brilhando de curiosidade.
- Isso é um CD, ou melhor... Um DVD. Era nisso que nós antigamente guardávamos dados. Nós fazemos isso aqui girar dentro de um aparelho e ele vai lendo.
O menino ficou olhando curioso, achou que as pessoas antigamente complicavam muito as coisas, fazendo com que aquilo girasse só para guardar dados.
- Ahn... Um minuto filho, se eu achar os cabos e aparelhos podemos assistir naquilo ali - Disse o homem apontando para a TV incrivelmente velha.
O pai começou a abrir caixas e caixas de papelão procurando peças, enquanto o menino olhava a TV. Não que estivesse ainda achando aquele aparelho muito antigo, mas lembrou de algo. Steve não estava na frente da TV? Para onde foi?
O menino saiu da sala devagar com seus pequenos pezinhos, ainda estava muito escuro no corredor. Como ninguém mais dormia, acendeu as luzes. Olhou para os lados e para cima. Nada do Steve. Foi andando até a sala, tudo parecia normal.
- Steve! - Gritou, mas ninguém respondeu. - Steve!
Estava quase voltando para o corredor quando viu algo preso na escotilha de saída, era um papel com palavras escritas, grudada com algum tipo de fita transparente. O menino foi até lá e puxou aquilo. Era uma carta. Dizia:

Senhores,

Tenho passado muitos bons momentos servindo vocês. Sinto que aprendi muito convivendo com seres tão complexos e confusos como são os seres humanos.
Hoje, porém, ao parar pela primeira vez para pensar na vida, computei que falta algo. Algo que não consigo compreender o que é.
Tentei durante o resto da noite descobrir esse dado ausente, mas estranhamente, a mensagem "Tudo bem" é a única coisa que consigo alcançar.
Decidi partir, para conviver com outras pessoas, ouvir outras histórias e achar o meu objetivo de vida.
Obrigado e não me esperem para o almoço.

Steve.

O menino correu para a janela, mas não conseguiu enxergar nada. Sabia que Steve queria encaixar a expressão humana "Não me esperem para o almoço" em algum lugar, mas nunca achava momento apropriado. Sentiu um aperto por dentro, uma sensação de despedida que nunca tinha sentido.
- Filho! Acho que consegui! - Gritou o pai, fazendo certo barulho.
O menino ainda olhou mais um pouco pela janela, procurando qualquer coisa próxima a uma bola de basquete. Não havia nada.
- Corre aqui filho! - Gritou o pai animado.
O menino sentiu que estava para chorar, mas olhou para a carta e engoliu o choro.
- Tchau Steve - Disse. Saiu correndo para o quarto - Estou indo pai!
Era uma noite normal o suficiente em uma casa normal o suficiente. Pouca coisa mudaria na vida das pessoas daquela vizinhança depois daquela noite. Ainda acordariam praticamente no mesmo horário, mastigariam as torradas praticamente ao mesmo tempo e escovariam os dentes praticamente 76 vezes para cima e 75 vezes para baixo. A vida pode ser feita de aventuras, mas nada impede que seja feita de momentos assim, praticamente normais o suficiente. O importante é que seja vivida do jeito certo, ou do jeito que escolhemos, ou do jeito menos errado...

Tudo bem.
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Re: Histórias quase-reais

Mensagempor Diogho » 27/01/2012 (Sexta-feira), às 16h20min

Como nós somos ultrapassados O.o... hê, hê.

Nossa, eu decidi ler porque você citou Digimon, mas como me surpreendi. Mesmo usando o tema só como pano de fundo, posso dizer que foi umas melhores do gênero que já li. Muito profunda a história, o Steve (que me lembra muito o Scrapper XD) me fez rir em quase todas as suas passagens, mas me senti um pouco triste no final. Será que era aquilo mesmo que ele queria dizer? De qualquer forma, foi uma bela forma de mascarar uma despedida definitiva. As reações do menino diante das antiguidades do pai, como quando ele pega o boneco do Leomon, foi uma coisa tão interessante... nos leva a refletir em como as coisas podem sim virem a ser muito mais simples no futuro, embora não necessariamente melhores. Sequer há a necessidade de nomear as outras personagens; o que importa é retratar o momento que estavam vivenciando, um choque entre diferentes gerações e uma oportunidade talvez única para que pai e filho tivessem um envolvimento maior, e nada mais.

Muito bom, Delavu. Espero que mais pessoas tenham a oportunidade de ler, aqui ou em outro lugar.
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Mixed feelings

Mensagempor lpslucasps » 28/07/2012 (Sábado), às 18h00min

Achei mediana. Não tenho muito o que reclamar sobre a forma. Os diálogos e a narração, mesmo que simples, ficaram mais do que excelentes com a temática (lembremos que é uma fanfic de um shonen) e os personagens bem caracterizados. Reclamaria somente com a introdução da parte dois, que achei descenecessariamente repetitiva.

O que mei deixou meio insatisfeito foi mais o conteúdo mesmo. Normalmente fanfics são usadas para duas coisas: trabalhar histórias alternativas de uma obra pré-existente ou desconstruí-la. Acho as duas opções extremamente agradáveis. Sua fanfic toma um caminho completamente diferente, usando os personagens e temáticas apenas superficialmente, focando-se em mensagens e temas próprios e independentes. A conexção com Digimon ficou um tanto quando desnecessária nesse sentido, não tendo importância de fato. Com pequenas alterações o texto poderia ser lançado como conto independente e ninguém ia notar, ela não perderia coisa alguma.

Outra coisa que não me agradou muito foi a ambientação. Gosto de ficção científica, mas como scifi sua fic é um bom shonen (wait...). O modo como você tenta abordar objetos e tecnologias atuais como coisas anciãs e dinossaurescas em seu mundo é meio inverossímil e forçado em algumas partes. Dado o tema nostálgico e a mensagem que glorifica virtudes antigas faz sentido em algumas partes, mas mesmo assim, achei um tanto quanto irritante. Digamos que há pouco "sci" e muito "fi".

Falando na mensagem, há duas aí. A primeira, permeando quase todo o texto, é sobre como é preciso cultivar o diálogo e virtudes antigas, como devemos impedir que a tecnologia mecanize as relações humanas. Ela é em clichê, mas já falei aqui nesse fórum antes: clichês não são ruins, basta saber usá-los. Entretanto, do modo como você escreveu, não consigo parar de perceber essa mensagem como uma forma de falsa nostalgia, o que não me agrada muito.
A segunda mensagem, presente no final, é sobre as considerações da natureza paradoxal humana, e foram exibidas de forma magnífica pelo Steve e pela reação da criança ao ler a carta. Esse final ficou muito bom e acho que se o texto desse mais foco para esse viés ficaria melhor. Convenhamos, Steve é o melhor personagem, hands down.
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