Entropia

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Entropia

Mensagempor Luki4n » 16/10/2012 (Terça-feira), às 00h54min

Criando o tópico só pra ver se ainda dá tempo de concorrer a Melhor Fic no ZFA. Acho difícil.

https://docs.google.com/document/d/152z ... OZnpo/edit

Quem quiser ler aqui mesmo, segue no spoiler:

Texto escondido (pode conter spoilers): 
Não gosto da maioria dos ateus. Não das pessoas, mas do que elas se tornam quando falam de sua (falta de) crença ou qualquer assunto relacionado. Gosto de pensar que isso se dá porque eles passam necessariamente por duas fases antes de encontraram o seu caminho: a confusão e a iluminação.

A confusão, como o nome sugere, se dá quando o futuro descrente, quase sempre possuidor de uma religião pretérita, começa a pôr em cheque suas crenças, não importando a razão. É uma etapa difícil da conversão natural ao ateísmo, quando aos poucos ele vai notando que aquela religião não corresponde mais aos seus anseios e pensamentos e que nenhuma outra religião pode substituir aquele vazio.

Penso que só fui precoce em duas coisas na vida: no bigode e no pensamento crítico. Meus pais são católicos praticantes que vão à missa todos os domingos, participam de movimentos de igreja, caridade e coisas do gênero. E obviamente eles não iam deixar o seu filho seguir por um caminho oposto. Ainda me lembro quando perguntei à minha mãe o que era Deus e ela me explicou sobre onipotência, onisciência e onipresença. Eu era pequeno demais, mas me pareceu absurdo que alguém pudesse estar em todos os lugares ao mesmo tempo e, pior ainda, invisível e intangível. Mas eu também não tinha idade para questionar minha mãe com bons argumentos, então acreditei nela.

Não era simplesmente uma crença num Ser Superior, era a certeza de Sua existência. Eu sabia que Ele olhava por mim e me sentia bem por isso, rezava de noite, sempre que me lembrava, agradecendo por tudo que eu tinha e pedindo pelos menos afortunados. Até fiz aulas de catequese para a primeira comunhão na quarta série. Talvez tenha sido aí que tudo começou a desandar.

A professora de religião mencionou o Milagre Eucarístico de Laciano durante uma aula: um padre que não acreditava em Deus e rezava pedindo provas, até que um dia foi surpreendido quando o vinho virou sangue e a hóstia virou carne durante a comunhão, como ela contou sem muitos detalhes. Na hora eu simplesmente ouvi, acreditei e achei incrível o padre ter sido recompensado após várias orações pedindo sua prova.

No fim da quarta série, já após minha primeira eucaristia, entrei na minha fase de confusão. Aquilo que eu já sabia desde que descobri o que era Deus voltou à tona: não fazia o menor sentido. Entenda, pessoas religiosas não são menos racionais que as outras, elas apenas deixam a racionalidade e qualquer ceticismo fora do assunto porque todos precisam de valores fixos ou de menor questionabilidade. No meu caso, tornara-se impossível deixá-los fora da seara religiosa, o que motivou aos poucos minha perda de fé. O pior de tudo é que eu mal sabia o que era ateísmo na época e não conhecia outras crianças com a mesma falta de crença que eu. Eu me senti sozinho e inseguro, constrangido de falar nesse assunto com alguém.

Mas não desisti sem luta. Lembrei de minhas aulas de catequese e iniciei um longo processo pedindo provas sagradas de uma existência divina. Pedi incansavelmente, mas fui ficando com medo do tipo de evidência que me seria apresentado. Eu não iria me convencer com qualquer coisa que pudesse ser classificada com coincidência, então fui ambicioso: pedi por um milagre. Algo que quando eu visse eu pudesse ter a certeza que não era uma mera coincidência. O milagre nunca veio.

Qualquer um que diga que o ateísmo é o caminho mais fácil não sabe do que fala. É extremamente complicado e frustrante perder sua religião e ver esse espaço ser preenchido por um vazio enorme que nunca sumirá, acompanhando-lhe por todos os dias de sua vida e, se não se tomar as devidas medidas, destruindo-lhe de dentro pra fora, tornando-o ranzinza e ignorante.

É aí que entra a perigosa fase da iluminação. Os ateus sentem esse vazio, o desespero crescente tomando-os por completo e tentam preenchê-lo com um perigoso sentimento: o da superioridade. Passei por isso na quinta série e ainda passo por ele em menor intensidade até hoje. Tudo contribuiu: passei no teste para a que hoje é considerada a melhor escola pública do Brasil, o Colégio de Aplicação da UFPE. Não sendo suficiente, eu era um dos melhores alunos do meu colégio antigo, tirava ótimas notas, era aluno exemplar e, naquele momento, eu não acreditava em Deus. Eu era intelectualmente superior em todos os aspectos e todos deveriam ser como eu. Eu não ia doutriná-los e lhes mostrar o caminho, eu ia humilhá-los e me colocar como superior em todas as oportunidades que eu tivesse.

É por isso que ainda que desgoste da maior parte dos ateus eu os entendo. Alguns nunca saem dessa segunda fase e vão passar o resto da vida alimentando esse pensamento ilógico para lutar contra o enorme vazio dentro deles. Frise-se que esse vácuo não é propriedade exclusiva dos ateus, está em crentes também e nem sempre por causa de sua religião, mas por causa de sua existência. Ateus são frustrados porque o baque da perda de crença religiosa é grande e duro, além do preconceito velado ou explícito que se nota quando se anuncia sua nova posição. Não é fácil ser um e qualquer pessoa que ache que esse é o caminho mais tranquilo deve repensar sua visão quantas vezes for necessário.

Mas a história ainda continua. Eu sempre prometo contá-la aos meus amigos e nunca conto. Primeiro porque é inverossímil, irreal e tenho medo que não acreditem em mim e me tomem por louco. Segundo porque eu tenho medo que acreditem.

Na sexta série eu já me considerava ateu convicto. Não estava mais confuso. Estava bastante iluminado. Um dia, enquanto o resto da turma estava na aula de educação física na quadra ou matando aula por aí, eu estava sozinho na sala terminando um trabalho que deveria entregar aquele dia. Comecei a sentir uma dor no dedo e vi que tinha um pequeno corte. Pouco tempo depois um colega de sala entrou pra pegar a bolsa e me perguntou o que estava havendo ao ver que eu encarava meu olho com um olhar curioso.

Ele brincou dizendo que um fantasma ou um espírito tinha cortado o meu dedo. Óbvio que ele não acreditava que aquela era a verdade e muito menos eu, que murmurei algo como “Aham, claro”, ao que ele me retrucou “Você não acredita?” saindo da sala em seguida. Achei a pergunta interessante. Não por causa do meu dedo, mas porque eu nunca tinha parado pra pensar se acreditava ou não em coisas sobrenaturais. Enquanto me indagava sobre isso, aconteceu algo inesperado. Senti um calafrio que me fez remexer todo o corpo.

Olhei para a porta da sala e senti uma presença forte de algo ali. Eu poderia jurar que havia alguém parado na porta, mas eu não via ninguém. Digno de um esquizofrênico ou qualquer um com alguma doença mental. Os pelos do meu corpo se eriçaram e tive um segundo calafrio. Quase que instantaneamente o interruptor das lâmpadas, logo ao lado da porta, moveu-se desligando as luzes.

No auge da tensão, essa é a primeira parte engraçada. Eu não sai correndo de imediato. Por um tempo que deve ter sido de um, no máximo dois segundos, eu fiquei parado no meu lugar sentindo minha cabeça dar um nó. Acho que meu modo de ver o mundo estava se despedaçando naquele instante, mas acima de tudo o meus instintos se perguntavam o que diabos estava havendo ali e qual atitude tomar. Depois desse momento de paralisação, tomei a atitude óbvia e sem pensar racionalmente sobre nada daquilo: saí correndo da sala.

Ao chegar na porta eu senti um terceiro calafrio e senti uma presença agora no lugar onde eu estava. As luzes estavam desligadas, mas os ventiladores continuavam ligados, e eu pude ver a caneta que deixei em cima do papel rolar e caí no chão, enquanto o papel começava a voar pela sala. Saí em disparada e enquanto descia as escadas tive a sensação que ia morrer, que algo tinha vindo me pegar. No mesmo fôlego, corri até a quadra e procurei falar com alguém, colocar-me na visão de outra pessoa só pra garantir que minha segurança. Topei com meu colega da mochila e uma outra menina, desatando logo a contar o que tinha acontecido, sem me preocupar muito com se eles iam acreditar ou não. Estava morrendo de medo.

Ela me tranquilizou e disse que já tinha visto um homem na casa dela de noite também e que acreditava em mim. Essa é a segunda parte engraçada. Eu não acreditei nela. Não era racional alguém ver um homem que não deveria estar ali dentro de casa à noite, deveria haver uma explicação racional para aquilo. Então fiz algumas perguntas para averiguar o caso e encontrar uma explicação plausível para o que ela viu. Quando me toquei o que estava fazendo, caí em mim de como estava sendo idiota. Eu estava fugindo de uma presença que move interruptores e duvidando da menina ao mesmo tempo. O universo tem um sendo de humor irônico. De todo jeito, continuei sem acreditar nela, mas agora em silêncio.

Voltei com eles à sala e quando chegamos estava tudo do mesmo jeito: ventiladores ligados e luzes desligadas. Peguei minhas coisas enquanto estávamos lá. Não queria correr o risco de ter que voltar pra sala depois, sozinho, pegar minhas coisas.

A volta pra casa foi confusa. Perguntei-me o que caralhos estava acontecendo e se o que eu tinha visto era real. O fato de termos voltado para a sala depois e encontrado as coisas como eu as havia deixado contribuiu a favor da minha sanidade. O fato de que eu ter chegado à conclusão de que não é racional duvidar dela também.

Quando cheguei fiz o que qualquer criancinha assustada faria nessa situação: contei tudo pra minha mãe. A nova parte engraçada é que minha mãe acreditou em mim. Quase fiquei com raiva dela por isso. Não fazia o menor sentido o que havia acontecido e, de certa maneira, eu queria que as pessoas não acreditassem em mim, dissessem que não tinha acontecido. Tudo seria muito mais fácil e eu queria o caminho fácil. Ela então me contou que essas coisas aconteciam, chamavam-se “eventos parapsicológicos” e começou a contar um pouco sobre parapsicologia e como o inconsciente humano provocavam coisas assim, dizendo ainda sobre aquele primo padre dela que, como eu iria descobrir, era também parapsicológo e estudava essas coisas, assim como o Padre Quevedo.

Os dias seguintes foram bem dolorosos, fiquei morrendo de medo de ficar num cômodo sozinho e dormia de luz e TV ligados. Foda-se o meio ambiente. Eventualmente, superei o trauma sozinho, embora ainda pense sobre isso quase todos os dias da minha vida.

A penúltima parte engraçada é que eu demorei anos pra associar o meu pedido de milagre da quinta série com o que aconteceu na sexta. Vários fatores contribuíram. Eu não era mais ateu e nem mesmo lembrava mais daqueles pedidos. Eu estava pensando sobre coisas sobrenaturais na hora do evento, não sobre coisas religiosas. E, o mais importante, o evento foi terrivelmente assustador, tendo como trilha sonora as batidas aceleradas do meu coração e uns gritos abafados de desespero, não aquela melodia pacífica de anjos tocadores de harpa como seria esperado. Se Deus existe ele é mal e certamente honra o velho testamento, porque eu demorei muito tempo para me recuperar.

Mas o mais irônico de tudo é que quando eu finalmente associei meu pedido ao acontecimento sobrenatural, eu não acreditei naquilo como um milagre. Lembro bem das palavras da minha reza: “eu quero algo fora do normal que quando aconteça eu não possa pensar que é uma coincidência”. Mas não consigo pensar que não seja. Acredito ter presenciado um fenômeno parapsicológico e o fato de haver um padre parapsicológo na minha família, apesar de só contribuir para a improbabilidade dos fatos, aumenta ainda mais a estranha ligação entre os fatos. É o tipo de evento de probabilidade tão baixa que fica no limiar entre a coincidência e o sobrenatural.

Entendo que quase todas as pessoas procuram razão para crer. Todos possuem ao menos uma dessas histórias cabeludas e alguns tiram suas próprias conclusões, sejam elas divinas, sobrenaturais, místicas, mas sempre com um pé no inexplicável, sofrendo com a falta de racionalidade. Já outras pessoas procuram razões para não crer, fixando sempre explicações no limite do concreto e explicável, rejeitando ideias fantásticas em prol do factível. Não me considero em nenhum desses dois tipos. Eu não incentivo minhas crenças. Eu alimento o vazio porque percebo que fui levado a pensar que a perda da minha religiosidade matou uma parte de mim e deixou um vácuo indestrutível. Hoje noto que eu fui e sempre serei essa lacuna. E não quero disfarçá-la e perder minha própria identidade, obrigando-me a preenchê-la com coisas impostas a mim. Não desejo que as ideias se alimentem do vazio, consumindo-o e o destruindo. Almejo que ele se desenvolva e englobe o mundo inteiro, quando estiver pronto e for da sua vontade.



Resumo: Conto sobre ceticismo e conversão ao ateísmo.
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